Mapeamento de Gradientes Geotérmicos no Estado de São Paulo

Antonio Jorge de Lima Gomes (ajlgomes@on.br) e Valiya M. Hamza (hamza@on.br), Observatório Nacional, RJ, Brasil.

 


Copyright 2004, SBGf - Sociedade Brasileira de Geofísica

Este texto foi preparado para a apresentação no I Simpósio Regional da Sociedade Brasileira de Geofísica, São Paulo, 26-28 de setembro de 2004. Seu conteúdo foi revisado pela Comissão Tecno-científica do I SR-SBGf mas não necessariamente representa a opinião da SBGf ou de seus associados. E proibida a reprodução total ou parcial deste material para propósitos comerciais sem prévia autorização da SBGf.

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Resumo

Resultados de estudos geotérmicos realizados desde a década de 1970, foram utilizados numa avaliação detalhada dos gradientes geotérmicos do Estado de São Paulo. A compilação atual engloba medidas experimentais em 83 localidades (distribuídas em 43 municípios). Grande parte do Estado de São Paulo apresentou gradientes térmicos na faixa de 20 a 300C/km, com valor médio de 20,3 ± 0,81ºC/km. Esta faixa é típica de áreas continentais, tectonicamente estáveis. Contudo, foram encontradas áreas com gradientes térmicos acima de 35oC/km ao longo da borda norte, na parte central da bacia Taubaté, em Paranapanema na região sudeste e em Presidente Prudente na região oeste.

Introdução

Os primeiros estudos geotérmicos no Estado de São Paulo foram efetuados na década de 1970, por Meister (1973), Vitorello et al (1978) e Hamza et al, (1978). Posteriormente, nas décadas de 1980 e 1990, foram efetuados novos levantamentos na região oeste (Santos et al, 1986), na bacia Taubaté (Hamza et al, 1986; Ribeiro, 1987), na área costeira de São Sebastião (Hamza et al, 1992) e na parte leste do estado (Del Rey e Hamza, 1989; Higashi e Hamza, 1996; Higashi, 1999). Grande parte desses dados encontra-se disperso em publicações de circulação limitada. Nas avaliações posteriores dos dados geotérmicos (Hamza and Muñoz,1996 e Hamza and Silva Dias, 2001), foram examinados apenas aspectos do campo térmico em escalas continentais. Apresentam-se, neste contexto, resultados da primeira análise detalhada da distribuição do gradiente geotérmico no Estado de São Paulo.

O presente estudo faz parte integrante de um projeto de pesquisa iniciada recentemente no Laboratório de Geotermia do Observatório Nacional – ON/MCT, cujo objetivo é a avaliação de recursos geotermais da Bacia do Paraná. Na primeira fase deste projeto foi efetuada uma compilação dos dados de perfilagens térmicas de 83 localidades, distribuídos em 43 municípios no Estado de São Paulo. A distribuição geográfica desses dados é ilustrada na figura (1). Com exceção das áreas na região sudeste e noroeste a distribuição de dados é razoavelmente uniforme, o que permite análise do campo térmico em escalas regionais.

Metodologia Adotada

No presente trabalho foi efetuado uma reavaliação dos gradientes térmicos determinados nos estudos anteriores, com objetivo de uniformizar os procedimentos de análise de dados primários e de padronizar os métodos de correção. A fim de minimizar problemas oriundos de mudanças na qualidade dos dados primários foram selecionados apenas dados de medições experimentais que permitem determinação direta do gradiente geotérmico. Desta forma, foram utilizados resultados obtidos pelos métodos designados de convencional (CVL), temperatura estável do fundo de poço (CBT) e temperatura do fundo de poço de petróleo (BHT). De acordo com a escala de prioridades sugeridas por Hamza e Muñoz (1996), resultados destes métodos podem ser considerados como de qualidade superior àqueles obtidos por métodos geoquímicos.

Figura 1 – Locais das medidas geotérmicas no Estado de São Paulo por tipo de Gradiente.

No método convencional (CVL) o gradiente geotérmico é determinado para intervalos de profundidades selecionados, com base em informações de perfil litológico do poço em questão. Os valores foram calculados pelo critério de mínimos quadrados. Nota-se, neste contexto, que para um matriz de coeficientes AMxN, com M>N, e para um vetor  de dados observados o critério de mínimos quadrados fornece estimativas (e ) que satisfaz o modelo:

                    (1)

Nos casos de poços rasos com indícios de perturbações térmicas foram aplicadas correções para minimizar os efeitos de mudanças climáticas e de topografia local.

O método de temperatura estável de fundo do poço (CBT) foi utilizado em casos em que o campo térmico do poço é alterado pelo fluxo de fluidos no seu interior. Nesses casos a perturbação térmica é praticamente nula na parte inferior do poço.

O método de temperatura de fundo de poço (BHT) foi adotado para determinação de gradientes térmicos em poços de petróleo. Em ambos os casos a relação utilizada para a determinação do gradiente térmico é:

     (2)

onde TFP é a temperatura do fundo do poço, T0 a temperatura média anual da superfície, H a profundidade do poço, N o número de camadas e h a espessura da camada. A segunda igualdade no lado direito da equação (1), indica, que os gradientes calculados pelo método CBT e BHT, são médias ponderadas de gradientes intervalares, os quais mudam conforme as variações nas condutividades térmicas das camadas interceptadas pelo poço. Convém notar que, no método CBT, as medições de temperaturas são geralmente efetuadas em poços de regimes térmicos estáveis, utilizando termômetros de precisão e, portanto, não necessitam de correções. Por outro lado, o grau de incerteza deste método é maior, já que falta de informações apropriadas dificultam a determinação exata da temperatura média anual da superfície nos locais de poços. As medições das temperaturas BHT, efetuadas em poços de petróleo, precisam ser corrigidas dos efeitos perturbadores das atividades de perfuração. No presente trabalho, os dados BHT com medidas múltiplas de temperaturas, foram corrigidos pelos métodos propostos por Lachenbruch e Brewer (1959) e Middleton (1980). Nos casos em que havia apenas uma medida de temperatura utilizou-se a relação empírica conhecida como correção `AAPG` (AAPG, 1976). A incerteza neste método é oriunda principalmente de uso de termômetros com baixa exatidão para as medidas.

Resultados Obtidos

No estagio atual do projeto foram concluídos reavaliações de gradientes térmicos em 83 localidades, distribuídos em 43 municípios, do Estado de São Paulo. A faixa de valores encontrados é de 10 a 30oC/km, sendo que o valor médio é 20,3 ± 0,81 ºC/km.

Apresenta-se na Tabela (1) gradientes térmicos obtidos, em 45 localidades, pelo método convencional (CVL), descrito no item anterior. Na ausência de evidencias independentes a ocorrência de valores elevados em Cosmópolis, Nuporanga e Presidente Prudente não foram considerados como representativos de gradiente térmicos regionais. Os desvios padrões na determinação dos gradientes, apresentados na última coluna desta tabela indicam os graus de incerteza deste método.

Resultados de gradientes térmicos obtidos em 25 localidades pelo método CBT, acima descrito, são apresentados na Tabela (2). Com exceção do valor alto de 52oC/km encontrado num poço de 500 metros de profundidade em Taubaté (Vale do Paraíba), os gradientes encontrados estão na faixa de 12 a 33oC/km. Esta faixa mais ampla e valores relativamente elevados de desvio padrão são indicativos de maior grau de incerteza inerente deste método. As profundidades dos poços onde foram efetuados perfilagens térmicas pelo método convencional e pelo método CBT são inferiores a mil metros.

Encontra-se agrupados na Tabela (3) os gradientes térmicos calculados para treze locais de poços de petróleo, obtido pelo método BHT. Com a exceção do valor encontrado em poço de Pitanga, os gradientes térmicos estão numa faixa relativamente estreita de 17 a 23oC/km. As profundidades dos poços de petróleo variam de 1000 a 5000 metros.

Tabela 1 – Valores do Gradiente pelo método convencional (CVL).

Município

Coordenadas

Grad. (ºC / km)

Latitude

Longitude

Calculado

σ

Águas de Lindoia

22º 29'

46º 38'

17,5

0,21

 

22º 28'

46º 38'

17,3

0,97

Amparo

22º 43'

46º 46'

18,1

0,13

Araras

22º 21'

47º 22'

19,2

0,51

Atibaia

23º 07'

46º 33'

13,5

0,11

Brag. Paulista

22º 57'

46º 33'

21,9

0,16

 

22º 58'

46º 32'

24,2

0,21

Brotas

22º 16´

48º 06´

11,5

1,67

Cosmópolis

22º 43'

47° 12'

39,7

0,65

Dourados

22º 07'

48° 19'

19,6

0,65

Guaratingetá

22º46´54”

45º 10´

16,1

1,31

 

22º48´06”

45º10´26

16,1

2,82

 

22º47´47”

45º13´24

27,1

0,71

Itapira

22º 28'

46º 43'

15,8

0,14

Itápolis

21º 36´

48º 49´

15,0

1,68

Itú

23° 15'

47° 19'

19,9

0,03

Jacareí

23º17´44”

45º57´20

23,2

0,05

Jundiaí

23° 10'

46° 52'

19,8

0,09

Lindóia

22° 32'

46° 39'

11,5

0,14

Mogi Mirim

22º 26'

46º 57'

13,8

0,48

Monte Al. do Sul

22º 42'

46º 43'

20,7

0,11

Nuporanga

20º43' 49"

47º45'15"

34,9

1,31

 

20º43'49"

47º45'15"

20,2

1,03

 

20º43'49"

47º45'15"

31,8

0,27

 

20º43'49"

47º45'15"

13,1

0,28

Olímpia

20º 45´

48º 55´

22,1

0,14

Pedreira

22º 45'

46º 50'

9,8

0,15

Piquete

22º37´15”

45º09´46

8,9

0,13

Pres. Prudente

22º 08´

51º 24´

36,8

0,76

Rafard

23° 00'

47° 31'

21,1

0,37

Santa Izabel

23º 08´51

46º14´22

15,2

3,65

S. J. Campos

22° 58'

45° 47'

29,3

4,63

 

22° 58'

45° 47'

26,0

0,60

 

23º 10´49

45º50´09

27,4

2,84

São Paulo

23º 39´

46º 37´

22,0

0,26

 

23º 39´

46º 37´